Hoje aproveito este espaço para publicar aqui um conto que foi ao ar no dia 18 de abril na página eletrônica Segunda a Sexta. Fiquem à vontade pra comentar.
Abraços,
Vinícius Faustini
*****
DURMA BEM
Saiu do banho com a decisão já tomada também em seu coração. Questionou por alguns instantes se podia citar a palavra “coração”, pois achava que o que em breve iria fazer era uma coisa desumana (se não achasse, alguém iria achar por ele quando soubessem o que ele estava prestes a fazer). Vestiu a cueca, o short e uma camiseta. Respirou fundo e abriu a porta sanfonada do banheiro.
Tomou o resto da latinha de cerveja. Achava que seria menos difícil o próximo passo, mas estar levemente alcoolizado não adiantou muito. Cortou uma fatia de queijo provolone e colocou na boca. Saboreou calmamente aquele pedaço. Fechou a geladeira. Viu, ao lado da cesta de ovos, um copo de água e alguns comprimidos de remédio. Olhou, de relance, para a sala. A TV estava ligada, no jornal da noite.
Olhou para o lugar dos produtos de limpeza. Ficou aliviado quando viu que aquele veneno comprado anteontem permanecia, intacto, no mesmo lugar. Voltou a lembrar de Laura, que pediu um ultimato depois de quase dois anos juntos e uma suspeita de gravidez. Abriu o saquinho e colocou na água. Misturou com uma colher, até que o pó branco ficasse tão incolor quanto a água. Deixou a colher no meio da louça do jantar. Olhou para o relógio. Oito e meia. Hora do remédio.
Pegou os comprimidos e colocou em uma das mãos. Na outra, o copo de água. Suspirou, abriu um sorriso forçado, que logo depois tirou do rosto. Ia ficar muito forçado e até mesmo sórdido. Pensou nas coxas de Laura. Na barriguinha de Laura. Nos seios de Laura. Na boca de Laura. No gosto de Laura.
Caminhou lentamente até a sala. Estacou, na porta da cozinha, para olhar um pouco mais a esposa. De beleza tão doce mas tão maltratada depois de dez anos de casados. Ela roia as unhas da mão esquerda e soltava um “que absurdo” depois que o noticiário contava a notícia de mais um assalto a banco.
Foi até ela. Estendeu a mão com os comprimidos e disse: “Hora do remédio”. Ela ainda o olhou com certa ternura quando pegou o Omeprazol e a Neosaldina. Colocou na boca e pegou o copo de água. Bebeu.
Foram poucos os instantes entre o primeiro gole e o primeiro grito de dor. Ele não disse nada, só assistia àquela agonia. Não teve um movimento na face enquanto ela se debatia. Só pensava na outra. Em Laura. Que agora seria a única na qual ele precisaria pensar.
Enfim, a esposa deu seu último suspiro. Deitou-a no sofá-cama. Num último afago, acariciou seus cabelos longos. Fechou os olhos dela. Beijou-a na testa e sussurrou, com carinho quase de pai: “durma bem”.